Don’t photoshop my heart #14

 

É impossível não acharmos que estamos fazendo a coisa errada com o nosso coração quando chegam os domingos de ressaca ou as noites de chuva, e você sabe que seriam horas as quais você mais gostaria de um cobertor humano. Você vira de um lado para o outro, esbarra com o celular ou com as cobertas que precisam ser lavadas e se pega olhando para o teto, que parece mostrar mais do que deveria. As palavras omitidas, as conversas que só aconteceram dentro da sua cabeça ou as batatas fritas que você se imaginou dividindo. Onde está o celular mesmo?

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Carta não-enviada por: Autor anônimo, 24 anos.

Carnaval passou. E só fica a lentidão do retorno à todas as obrigações, a ressaca, e o “embrulho” caracterizado por um excesso de bebida, felicidade e comida estragada de rua. O tal do “embrulho” pode ser também um vai-e-vem dentro do estômago caracterizado por alguma situação mal resolvida. E foi bem nesse clima que eu li essa carta não-enviada.

Para ler ouvindo: Placebo – Protège Moi

Uma insatisfação estridente recomeçara a surgir dentro de mim, para em seguida rosnar, e rapidamente berrar, logo que eu abaixava minha guarda. Como antes. Eu não sei com que propósito você pediu para recomeçarmos tudo aquilo. Mas recomeçamos.

A gente tem uma vida, uma vida de babacas. Comemos, dormimos, transamos, saímos. Sempre a mesma coisa se repetindo. Cada dia é a repetição inconsciente do anterior: a gente come uma coisa diferente, a gente dorme melhor, ou pior, transa bem, as vezes desconfortável, vamos a um lugar diferente quando saímos. Mas é igual, sem objetivo, sem interesse. Nós continuamos e nos determinamos pequenos objetivos materiais. Aquela X garrafa de vodka, aquela Y viagem para tal lugar, aquele jogo que a gente não vai jogar juntos. A gente perde a cabeça tentando realizá-los. Mas, ou a gente nunca consegue alcançá-los, e fica frustrada para o resto da vida, ou, quando consegue, percebe que não dá a mínima. Depois a gente morre. 

A gente tenta se distrair, fazer a farra, a gente para de beber por alguns dias, acha que parou, e depois vem a recaída. De muito alto. A gente tenta brincar com a vida para fingir que a domina. A gente anda rápido demais, andamos à beira do abismo, e ainda assim nos evitamos em demasia, beirando a a separação. E isso assusta os nossos pais que vêem seus genes bem cuidados, e corretamente podados pela época de ouro em que viveram se degenerarem a esse ponto, é uma coisa inacreditável para eles. Os limites se perdem. A gente é uma espécie de elétron sem núcleo. E a gente não tem o direito de se queixar, porque aparentemente temos de tudo para sermos felizes. E por que a gente desconta tanto um no outro?

Eu não sei. Mas espero que isso passe. Passe mesmo. Queria te dizer isso, mas você nunca para pra me ouvir. Pressa demais. Passa.

*Fotografia do Paul O’ Connel, adorei o trabalho dele. Bem “climático” sabe? Deu pra sentir bem o clima ~frio~ em algumas fotos.