Don’t photoshop my heart #14

 

É impossível não acharmos que estamos fazendo a coisa errada com o nosso coração quando chegam os domingos de ressaca ou as noites de chuva, e você sabe que seriam horas as quais você mais gostaria de um cobertor humano. Você vira de um lado para o outro, esbarra com o celular ou com as cobertas que precisam ser lavadas e se pega olhando para o teto, que parece mostrar mais do que deveria. As palavras omitidas, as conversas que só aconteceram dentro da sua cabeça ou as batatas fritas que você se imaginou dividindo. Onde está o celular mesmo?

Let’s be alone together

Harry Booth.
Há um processo inerente ao que chamamos de amar, que vai diminuindo muito do que somos para justificar o que nos tornamos juntos, sem que o outro também perceba que está mudando. E assusta.

Ia escrever amar entre aspas, como estou escrevendo “agora”, mas achei que estaria te colocando no meu abrigo escondido, esse seu mesmo abrigo escondido em que costumo ficar quando o resto fica sentido, como isto está ficando agora.

A verdade é que talvez eu não gosto de admitir o quanto acho que não preciso dos outros quando estou com você, mas eu não acredito que isso aconteça de outra forma.

Carta não-enviada por: Eu mesmo, 22 anos.

HAHA, dia inteiro em casa, tava dando uma revirada agora nas minhas redes sociais antigas, e esbarrei com esse texto que escrevi e postei no meu fotolog. Pois é. Quem nunca teve um né? Ops. Tá, teve gente que passou pela adolescência incólume sem isso. Mas enfim. Dessa vocês não escapam. Quem nunca teve um daqueles amores arrebatadores, e parece que o seu primeiro encontro com ele é todo mágico, e todo incrível e parece que vai ser a redenção para todos os seus dramas internos? HAHA, pois é.

Também não escapei disso… e foi assim como eu vi o meu “first date” do date que tem dado certo até hoje… Direto do túnel do tempo:

O tempo cessou de existir na praia, no começo da madrugada, a ampulheta cessou de medir as horas, imobilizada pela voz dos poetas, as canções de uma outra época, a lua intemporal e, sobre a grama, eu sempre terei quase 20 anos. E o sorriso que era realmente um sorriso se acende.

Olho minha sombra laranja dançar no calçadão, e ela podia ser a sombra de qualquer um. Mas é minha. E pertence ao mundo dos homens fodidos, tomados pelos paraísos artificiais e pelo pecado venal, apaixonados por todos aqueles que ainda não possuíram, os quais fatalmente acabarão terminarão sozinhos…

Vejo tudo isso. E sinto vontade de mudar.

Todo esse tempo, todos esses rostos, todos essas risadas inconseqüentes, e os meus amigos que me acompanharam até aqui… todos estavam lá. Esses abraços prolongados de manhãzinha, quando não é noite e nem é dia, o seu sorriso se abre então, e seus olhos se descerram, olho pra cima e já amanheceu, Nietsche está morto, e eu agradeço por isso. Eu acredito em Deus, eu acredito no diabo… eu acredito em tudo que já me foi falado.

Sinto frio sem meus sapatos. E não bebo aquela vodka. Queria que velas iluminassem aquela noite. As estrelas dançavam como se dança o yeah yeah yeahs… griséus no lusco-fusco da alvorada que se insinua através dos coqueiros, um cenário engraçado, sempre o mesmo.

 

* A foto lindona, eu vi aqui e é da fotografa Lauren Fleishman de um projeto incrível com fotos de casais de velhinhos, que ela começou após ter encontrado algumas cartas de amor do avôzinho dela(que morreu) para a avó. Ai ai… *suspira*

Carta não-enviada por: Autor anônimo, 30 anos.

Eu não sei se conseguiria chegar nesse nível todo de desapego, mas é lindo mesmo sabe? Acho que me falta maturidade pra entender… mas enfim. Fica ai mais uma carta não-enviada.

Para ler ouvindo: Cordel do Fogo Encantado – Os óim do meu amor

O que dizer quando quem a gente ama suspira outros ares? A idéia, por si só, já me abala, e a certeza de que isso é real me acaba, aniquilando quase todas as minhas palavras. É como um rasgo profundo e longo no meu peito. O golpe é forte.
Meu coração bate, mas de um jeito medroso. Não é por dúvida sobre se continua a amar ou não. É, na verdade, por receio de perder um grande amor. Alguém aí já sentiu esse sentimento de perda? Tenho muito o que perder. Não queria que isso fosse mais uma chuva de verão, que molhou a minha terra árida por uns dias e passou. Tenho muita sede de amar.
Tudo o que queria era viver um sonho impossível.
Fiz tanto pra tocar a Lua. Mas ela flerta com uma estrela. Aqui de baixo, na minha nau, só resta a noite silenciosa e eu, que preciso observar, de longe e silencioso, esse movimento. Acho que vou ficar sem minha Lua. Acho que uma estrela vai raptar minha Lua. Como as noites serão escuras! Temo não ter mais a beleza cintilante do meu tão desejado corpo celeste. É por isso que minhas mãos tremem e minha respiração, outrora ofegante, agora é pesada e difícil.

Eu posso desistir? Não, não quero. E o que fazer diante dessa relação? Não posso muito. Não desejo que fracasse. De náufrago, no oceano da tristeza, basta este aqui. Pode parecer louco, ou muito lógico, mas espero que dê certo. Tenho consciência de minha missão neste mar e dos desafios que apresenta. Mas, em todo caso, não terminarei só. Ficarei em companhia da solidão. Pena que ela não goste de conversar pelo msn ou twitter, nem curta chocolate quente.

Sinto que as palavras acabaram, embora ainda haja muita emoção dentro de mim para derramar aqui. Fica pra outra vez.

Vivo setembro em pleno janeiro.

Ao som das batidas melancólicas do meu coração. Alguém sabe que som a melancolia tem? Basta encostar a cabeça no meu peito e ouvir o ruído do meu coração.

*Foto por I, Word. E wow. Adorei esse olhar nipônico. O título da foto é “You haven’t seen the LAST of me”, bem a calhar não?

Carta não-enviada por: Autor anônimo, 21 anos.

Essa carta veio bem a calhar. Fim de verão. Outono batendo, e os corações parando. Vocês também estão com esse sentimento de correr e sentir-se menos vivos? Quantas escolhas você já fez desde o começo do ano que levou um pouco do que você queria estar vivendo? O fimzinho dessa carta terminou me levando à essa questão… enfim. Leiam!

Para ler ouvindo:  Bush – Letting the Cables Sleep

    Sábado à noite, faz uma semana que eu entrei de férias, tenho medo de enfrentar o mundo sem a certeza dos dias que separavam os fins de semana, e tenho me afundo desde então nos caminhos mais abjetos, regados a bebida barata e gente absurda. Tenho sorte de ter uma memória não muito boa, apenas me lembro do começo do sábado… A feirinha, o show, as lágrimas, a quase ida, o surto, a natasha, os 2 amigos e um ônibus.

    Sei que não vou encontrar você sem estar ao lado dele, em 3 anos eu só vi você 6 vezes… agora que vocês namoram eu encontro quase todo dia… e isso realmente não é coisa que se faça. Se eu fosse uma cor… eu seria violeta. Ultra-violeta. Uma cor não visivel aos olhos de todo mundo, e ficar invísivel era exatamente o que eu queria agora.

    Dá última vez que eu vi vocês, nem pestanejaram. Levantaram-se, quase sem se despedir e foram embora. Cada palavra que escapava de mim era um golpe de punhal que perfurava meu coração; quando partiram, eu estava exangue. Para mim, pouco mais de um mês. As pequeninas agressões mesquinhas são como facadas na água. Odeio ele, porque ele é como uma criança que se machucou e que tenta empurrar os amiguinhos no cercado de areia para que eles também se machuquem, e odeio você por ter escolhido ele.

    Eu não vou sair esta noite. Tenho medo da indiferença no olhar deles. Arejo o apartamento, uma lufada de ar fresco expulsa o cheiro de mofo e suor que suja as paredes do meu quarto, mas o negrume das minhas idéias permanece. Ontem eu vi no jornal uma matéria comentando que uma pessoa se mata à cada 30 segundos, minha mãe diz que é falta de Deus… fiquei calado e pensei: “Ah se ela soubesse o que faz-se por amor”.

    Afinal de contas, o que é que me impede de ir confessar tudo para eles? Confessar que é sempre sobre eles que eu escrevo, a razão de eu ter ido embora, de ter falado todas aquelas escrotidões fúteis, sobre um tipo de vida que eles odeiam, na última vez, só porque eu estava infeliz, ciumento, pirado, que cada palavra dita para eles era também pra mim e que eu preciso seguir em frente, mesmo amando, amando… e por amar eu seguiria em frente. Será?

    Eu te amo, isso não é nada, mas é tudo, e eu nunca disse isso para você.

*Foto da Flower By J. Uma galeria encantadora sabe? Tem um quê de “eu já vivi isso” nessas fotos todas que chega a assustar. Confiram o trabalho!

Carta não-enviada por: Autor anônimo, 24 anos.

Carnaval passou. E só fica a lentidão do retorno à todas as obrigações, a ressaca, e o “embrulho” caracterizado por um excesso de bebida, felicidade e comida estragada de rua. O tal do “embrulho” pode ser também um vai-e-vem dentro do estômago caracterizado por alguma situação mal resolvida. E foi bem nesse clima que eu li essa carta não-enviada.

Para ler ouvindo: Placebo – Protège Moi

Uma insatisfação estridente recomeçara a surgir dentro de mim, para em seguida rosnar, e rapidamente berrar, logo que eu abaixava minha guarda. Como antes. Eu não sei com que propósito você pediu para recomeçarmos tudo aquilo. Mas recomeçamos.

A gente tem uma vida, uma vida de babacas. Comemos, dormimos, transamos, saímos. Sempre a mesma coisa se repetindo. Cada dia é a repetição inconsciente do anterior: a gente come uma coisa diferente, a gente dorme melhor, ou pior, transa bem, as vezes desconfortável, vamos a um lugar diferente quando saímos. Mas é igual, sem objetivo, sem interesse. Nós continuamos e nos determinamos pequenos objetivos materiais. Aquela X garrafa de vodka, aquela Y viagem para tal lugar, aquele jogo que a gente não vai jogar juntos. A gente perde a cabeça tentando realizá-los. Mas, ou a gente nunca consegue alcançá-los, e fica frustrada para o resto da vida, ou, quando consegue, percebe que não dá a mínima. Depois a gente morre. 

A gente tenta se distrair, fazer a farra, a gente para de beber por alguns dias, acha que parou, e depois vem a recaída. De muito alto. A gente tenta brincar com a vida para fingir que a domina. A gente anda rápido demais, andamos à beira do abismo, e ainda assim nos evitamos em demasia, beirando a a separação. E isso assusta os nossos pais que vêem seus genes bem cuidados, e corretamente podados pela época de ouro em que viveram se degenerarem a esse ponto, é uma coisa inacreditável para eles. Os limites se perdem. A gente é uma espécie de elétron sem núcleo. E a gente não tem o direito de se queixar, porque aparentemente temos de tudo para sermos felizes. E por que a gente desconta tanto um no outro?

Eu não sei. Mas espero que isso passe. Passe mesmo. Queria te dizer isso, mas você nunca para pra me ouvir. Pressa demais. Passa.

*Fotografia do Paul O’ Connel, adorei o trabalho dele. Bem “climático” sabe? Deu pra sentir bem o clima ~frio~ em algumas fotos.